
Ovar na evolução literária de Júlio Dinis
O Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que usou o pseudónimo de Júlio Dinis, faleceu à uma hora do dia 12 de Setembro de 1871, depois de uma longa agonia de três quartos de hora, em casa de seu primo José Joaquim Pinto Coelho, na Rua Costa Cabral, n° 323, no Porto, onde também esteve presente nestes últimos momentos o seu amigo Custódio Passos (irmão do poeta portuense ultra-romântico Soares de Passos, autor do "Noivado do Sepulcro"). Foi sepultado no cemitério que então havia junto da Igreja de Cedofeita. Com a extinção deste cemitério, em 20 de Agosto de 1888, foram transladados os restos mortais do escritor, assim como os de seu irmão José Joaquim Gomes Coelho Júnior, para o jazigo n.° 58 do cemitério privativo da Ordem de São Francisco, em Agramonte, onde já estava sepultado seu pai, José Joaquim Gomes Coelho, irmão daquela Ordem, da qual também fora médico (o pai faleceu em Lisboa, em casa de sua neta Ana, no dia 21 de Julho de 1885). Em 1939, o 1º Centenário do nascimento do escritor Júlio Dinis foi comemorado com forte adesão popular e de várias instituições portuenses, com iniciativas próprias, que culminou com a romagem que partiu da entrada do Palácio de Cristal, para o cemitério de Agramonte, com uma enorme moldura humana que cobria a campa humilde, onde estão pai e filhos, que repousam para a eternidade. Actualmente, este pequeno jazigo é pouco frequentado, para não dizer esquecido. Apenas raramente, no dia de finados, algum anónimo vai depor algumas flores. Sinto um desgosto profundo quando visito este túmulo, apesar de já ter denunciado que há anos permanece na mesma. Lamento a desastrosa intervenção efectuada, na intenção de tornar visíveis os caracteres, que levou à adulteração ridícula das quadras de Soares de Passos dedicadas a José Joaquim Gomes Coelho Júnior, que faleceu em Dezembro de 1855, com 20 anos. Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), enamorado por Ovar, onde permaneceu em 1863 por um período de quatro meses, na casa modesta de sua tia Rosa Zagalo, e em outras breves passagens posteriores, aqui encontrou motivos para escrever. Ovar, com o decorrer dos dias que iam passando, foi-lhe dando elementos, desde a ida ao Furadouro que o inspira a escrever "O Canto da Sereia", à intensa correspondência enviada e recebida, até à criação das suas obra-primas, "As Pupilas do Senhor Reitor" e "A Morgadinha dos Canaviais". Em Ovar, o seu coração também foi tocado, quando confrontado com os primeiros encontros com Ana Simões, uma das filhas do Tomé Simões, casa que Júlio Dinis passou a frequentar com maior regularidade. "Venceste meu coração com subtil arte de amor", dedicatória gravada a seu pedido num coração de madrepérola, que num momento único e íntimo ofereceu a D. Ana Soares Barbosa Simões, personagem retratada na Margarida de "As Pupilas do Senhor Reitor". Esta jóia resistiu ao tempo, e o acervo de Júlio Dinis encontra-se instalado no Museu de História da Medicina "Maximiano Lemos", na sala José Carlos Lopes, na Faculdade de Medicina do Porto, 6º piso do Hospital de S. João, no Porto. A mesma sorte não tiveram as cartas enviadas por Júlio Dinis, pois D. Ana Simões, sentindo a vida extinguir-se, pediu à sua filha Emília para queimar as mesmas.Que perda irreparável! As cartas contribuíriam para dissipar este grande enigma que alguns teimam em recusar, da possível paixão por D. Ana Simões. Ou então a hipótese mais provável da ida de Júlio Dinis, com familiares e conhecidos, do lugar dos Campos na tradicional e tão popular romaria de devoção à Nossa Senhora da Saúde, Vale de Cambra, "tão alto que a Senhora da Saúde é vista por quem anda no mar. Os pescadores, em hora de aflição, viram-se para a santa e prometem pagar a ajuda divina. É por isso que os peregrinos são conhecidos por «vareiros»". Senão, vejamos, aquando da visita de dois dos seus melhores amigos vindos do Porto, o poeta Augusto Luso e o Custódio Passos, estes não encontram Júlio Dinis na casa dos Campos; estava ausente.Por tudo isto, e até por outros tantos episódios interessantes, existem indicadores claros e evidentes da importância que Ovar veio a ter na vida literária de Júlio Dinis. É bom lembrar de que "Uma Família de Ingleses" se encontrava há anos metido numa gaveta e só perante o êxito que tem "As Pupilas do Senhor Reitor" (no ano de 1866 saiu em episódios no "Jornal do Porto"), após ter regularizado o seu projecto pessoal, ao ser integrado na Escola Médica do Porto onde leccionou, é que finalmente, em 1867, é impresso "Uma Família de Ingleses", que veio a tornar-se outro êxito literário (a par da outra obra "A Morgadinha de Canaviais", que sai nesse mesmo ano).Decorridos que vão quatro anos e nove meses (desde Janeiro de 2004) a Casa-Museu Júlio Dinis continua, lamentavelmente para Ovar, encerrada "temporariamente para obras de remodelação". Recentemente foi deliberado e aprovado pela C.M.O. o ante-projecto de Requalificação e Ampliação do Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, mas é bom lembrar que este objectivo já é do conhecimento público há meses, sem qualquer resolução à vista e, neste já longo compasso de espera, ainda não se vislumbra um final feliz, com todas as consequências da progressiva degradação que este edifício está sofrendo e, da falta de cuidado por uma limpeza regular ao exterior que dignificasse todo este espaço.A obra de Júlio Dinis é "impregnada de bondade e de beleza, tão doce e tão afável, de tal modo conquistou o agrado do público"."O Homem morrera, mas o Escritor resistiu à morte, pois deixou uma obra que teve o raro condão de eternizar a memória do sublime artista que o concebera!"António Ferreira Valente(Ovar)


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