terça-feira, 26 de maio de 2009

PROSÉRPINA

JANELA DO TEMPO QUE PASSA…

NOSTÁLGICA

Amorim, anda cá, faz-me um favor, olha, vai à loja da Marquinhas comprar-me arroz, sabes, hoje não posso mesmo das minhas pobres pernas, teimam em não andar.

Amorim, deixou o jogo da bola de rua, e lá foi, como já era habitual, em grande correria satisfazer o pedido, da Tia Prosérpina, que já trás consigo o peso de 80 anos de idade ainda há pouco completos.

A Tia Prosérpina, viúva já lá vão uma dúzia de anos, vive só, sem filhos, conta somente com a solidariedade dos vizinhos que nutrem um grande afecto e carinho por esta simpática senhora.

Vive muito pobremente, usufrui de uma reforma de miséria, que mal dá para os medicamentos, quanto mais para a sua alimentação. Vive numa casa já muito tocada pelo tempo, bastante húmida, que não conhece obras de manutenção já há muito tempo, o que contribui para aumentar as dores insuportáveis dos ‘ossos’ das suas pernas.

A Tia Prosérpina ainda se recorda dos momentos em que no rio dos Pelames, (sem o brilho desses tempos, hoje tudo à volta é uma desolação) lavava a roupa das senhoras, e a sua voz bem afinada cantarolava as canções da época. Era contagiante, as outras lavadeiras que ocupavam cada uma a ‘suas’ pedras no rio de cima e no de baixo, também entravam nesta ‘desgarrada’ cantando, rindo a bom rir. E quem estivesse na estação do caminho-de-ferro ouvia este belo cantar e reconheciam logo a voz da Tia Prosérpina.

Casou, muito nova, era costume das raparigas da sua juventude, nesses tempos tão difíceis. Conheceu o Manuel quando este se deslocava com regularidade para os moinhos de Ul, Oliveira de Azeméis, com a carroça carregada de sacos de milho, de clientes, para a moagem em moinho alugado (a clientela era tanta que tinham de socorrer desta alternativa, onde existiam inúmeros moinhos de água em Ul, hoje recuperados, em contraste, com os existentes nos Pelames em ruína), e por onde permanecia até que a moagem estivesse completa. No percurso, cruzava em Madaíl (Ul faz fronteira a norte com Madail) onde metia conversa com a então jovem Prosérpina, de quem nunca mais tirou de vista, e assim repentinamente começa uma relação… recorda esses tempos com saudade.

Mas, há sempre um mas, o Manuel com um copito a mais, transformava-se num outro homem ficava nervoso, completamente modificado batia-lhe mal entrava em casa.

Com o tempo, Tia Prosérpina, adivinhando o estado do marido, já se refugiava em casa de uma vizinha, a uns poucos metros dos moinhos, até que as coisas arrefecessem.

Fora estes momentos, o Manuel era um bom trabalhador, como o recorda com saudade, a levada do rio estava sempre um esmero, que o digam quem o conhecia, principalmente as lavadeiras que frequentavam o rio dentro da sua propriedade.

Quantas memórias lhe vêm à mente, nos Moinhos quantas noites passou sem conhecer cama e o descanso, atenta à moagem da farinha, uma vida difícil, mas a doença do marido, a tuberculose o levou ainda bastante novo, não o merecia, dizia a Tia Prosérpina muitas vezes para si mesma, “mas Deus lá sabe porquê”.

A partir daqui a vida complicou, faltava-lhe as forças, tudo se desmoronava. Com o Manuel apesar daqueles momentos de mau génio tudo se ultrapassava, agora… Estava assim nestes pensamentos, quando aparece o jovem Amorim, que logo regressa ao jogo da bola. Lá foi fazer uma sopita para enganar o estômago, pois mais nada havia.

«Quantas vidas sós depois de uma vida de trabalho, se multiplicam por aí à nossa volta, que nem reparamos de tão apressados que andamos, ou pior ainda, tantas vezes com indiferença, e que hoje só vivem de recordações.

Outras vezes ficam a murmurar consigo mesmas, “ao menos se Deus me levasse”» …

António Ferreira Valente

Rua Bento Jesus Caraça, 33

3880-153 OVAR

Telef.: 256.575.984

Sem comentários:

Enviar um comentário